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Quando é hora de considerar uma casa de repouso para idosos?

Foto do escritor: Dra. Cíntia Siloto
Dra. Cíntia Siloto
há 6 dias
7 min de leitura

“Será que estou abandonando meu pai?”

“Minha mãe cuidou de mim a vida inteira. Como vou colocá-la em uma casa de repouso?”

“E o que os outros vão pensar?”


Para muitas famílias, a decisão de levar uma pessoa idosa para uma casa de repouso começa exatamente assim: com culpa. Existe ainda um preconceito muito grande devido ao conceito antigo de “asilo”.  O que remete a imaginar alguém sendo deixado pela família e esquecido. 

Mas essa imagem não representa toda a realidade.

Hoje, o termo técnico utilizado é Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI). E, dependendo das necessidades do idoso, uma instituição adequada pode fazer parte de uma estratégia de cuidado. A questão não deveria ser simplesmente:“É errado colocar meus pais em uma casa de repouso?”.A pergunta mais importante é: “Onde meu pai ou minha mãe consegue receber o cuidado de que precisa hoje?”


A culpa da família existe e já foi observada pela ciência


Esse sentimento não é incomum. Estudos com familiares que participaram da decisão de institucionalizar pais idosos descrevem sentimentos intensos de culpa, tristeza e até uma percepção de terem falhado em uma responsabilidade familiar.

Existe uma construção cultural por trás disso. Se nossos pais cuidaram de nós quando éramos crianças, podemos crescer acreditando que cuidar deles significa necessariamente mantê-los dentro de casa até o final da vida. Mas existe uma diferença fundamental:amor e capacidade de cuidado não são a mesma coisa.


Uma filha pode amar profundamente sua mãe e não conseguir oferecer supervisão durante 24 horas. Um filho pode querer manter o pai em casa, mas precisar trabalhar oito ou dez horas por dia. Uma família pode ser extremamente presente e não ter conhecimento para manejar uma demência avançada, administrar muitos medicamentos, prevenir quedas ou realizar os cuidados necessários com uma pessoa altamente dependente.

Reconhecer isso pode ser doloroso. Mas também é necessário.


Quando permanecer em casa começa a deixar de ser seguro?


Não existe uma idade determinada para procurar uma ILPI. Não é porque alguém completou 80, 90 ou 100 anos que precisa sair de casa. O ponto central é a capacidade funcional. Imagine uma mulher de 88 anos que mora sozinha. Ela toma banho, prepara pequenas refeições, administra os medicamentos corretamente, conversa diariamente com familiares, caminha com segurança e possui uma rede de apoio próxima. A idade, isoladamente, não determina que ela precise de uma instituição.


Agora imagine outra situação: o pai começa a esquecer os medicamentos. Em determinado dia, deixa uma panela no fogo. Algumas semanas depois, cai durante a madrugada. Começa a apresentar dificuldade para tomar banho sozinho. A família contrata uma pessoa algumas horas por dia, mas ele permanece sozinho durante a noite. Depois, começa a sair de casa e não se lembrar do caminho de volta. 


A pergunta muda. Já não estamos discutindo apenas onde ele prefere morar. Estamos discutindo como manter essa pessoa segura preservando o máximo possível de autonomia e dignidade.


Alguns sinais devem chamar a atenção da família ao escolher uma casa de repouso para idosos

Observe se o idoso ainda consegue sozinho:

  • tomar banho;

  • vestir-se;

  • alimentar-se;

  • usar o banheiro;

  • levantar-se;

  • caminhar;

  • organizar sua rotina.

A perda progressiva dessas capacidades aumenta a necessidade de assistência e muitas vezes uma casa de repouso para idosos pode auxiliar.


Quedas recorrentes


Uma queda pode ser um divisor de águas na vida de uma pessoa idosa. Depois de uma fratura, podem surgir perda de mobilidade, medo de cair novamente, redução das atividades e maior dependência. Se as quedas começam a se repetir, precisamos perguntar se o ambiente doméstico continua seguro e, principalmente, investigar as causas.

Demência e alterações cognitivas


Ter Alzheimer não significa automaticamente precisar morar em uma instituição. Mas algumas manifestações podem tornar necessária uma supervisão muito maior. Por exemplo: esquecer medicamentos; não reconhecer situações perigosas; deixar gás ou fogão ligados; perder-se; sair sozinho durante a madrugada; apresentar agitação ou alterações importantes de comportamento.


Necessidade de supervisão contínua


Em determinado momento, quatro horas de um cuidador podem não ser suficientes. Depois oito horas. Depois doze. Até que alguém precise estar disponível o tempo todo, supervisionando. É nesse ponto que algumas famílias percebem que reproduzir dentro de casa toda a estrutura necessária se torna extremamente difícil.


Existe outra pessoa que também precisa ser observada: o cuidador


Pergunte: Quem está cuidando de quem cuida?Às vezes encontramos uma filha de 65 anos cuidando praticamente sozinha de uma mãe de 90. Ela deixa de viajar. Reduz o trabalho. Dorme mal.Tem medo de sair de casa. Precisa levantar diversas vezes durante a madrugada. Começa a negligenciar a própria saúde. E sente culpa simplesmente por pensar que não está mais dando conta.


Mas morar em uma casa de repouso para idosos melhora a qualidade de vida?


Aqui precisamos evitar promessas fáceis. Depende.Não existe evidência científica para afirmar que qualquer idoso viverá melhor porque foi para uma instituição. Uma meta-análise reuniu seis estudos com 1.623 idosos cuja constatação mostrou melhores resultados na saúde física, saúde psicológica e relações sociais entre idosos que viviam em ambiente familiar em comparação aos institucionalizados.


Mas existe uma limitação muito importante. Os estudos eram observacionais. Quem precisa de uma instituição frequentemente já apresenta maior dependência, doenças, fragilidade ou comprometimento cognitivo.


Por isso, não podemos simplesmente concluir que foi a instituição que causou pior condição. Da mesma maneira, também não podemos afirmar que toda instituição melhora a saúde. A pergunta precisa ser individualizada.


Então o que uma boa ILPI pode oferecer?


Supervisão


Para um idoso com alto grau de dependência, saber que existe alguém disponível durante todo o dia e a noite pode representar uma diferença importante de segurança.


Organização dos medicamentos


Quanto maior o número de medicamentos, maior a complexidade dos horários, doses e possíveis interações.

Uma estrutura organizada de assistência pode ajudar no uso correto das prescrições e na identificação de problemas.


Acompanhamento nutricional 


Idosos podem apresentar perda de apetite, perda de peso, dificuldades para mastigar ou engolir e necessidades nutricionais específicas. Uma boa instituição precisa perceber essas mudanças. Nutricionista e Fonoaudióloga são importantes profissionais na equipe de saúde.


Manter-se ativo


Não basta manter o idoso seguro. É preciso evitar que a segurança vire imobilidade. Caminhadas, exercícios orientados, fisioterapia e estímulos para realizar atividades cotidianas contribuem para preservar a funcionalidade.


Estímulo cognitivo


Jogos, música, leitura, atividades manuais, conversas e outras atividades podem ser incorporados à rotina respeitando as capacidades e preferências de cada residente.


Convivência


Este é um ponto muito importante. Um idoso pode morar dentro da própria casa e passar dez horas por dia completamente sozinho. Ao mesmo tempo, pode morar em uma instituição e conversar durante as refeições, participar de atividades e estabelecer novas relações.


A conexão social é reconhecida como uma dimensão fundamental da qualidade de vida em instituições de longa permanência. Uma instituição de qualidade precisa criar oportunidades reais de vínculo, pertencimento e participação.



O idoso precisa continuar tendo escolhas


Existe um risco quando falamos em proteção: proteger tanto que retiramos a autonomia. A pessoa entra em uma instituição e, de repente, alguém decide: a hora que ela acorda;a hora que toma banho; a roupa que veste; o que come; onde senta; o que faz durante o dia; a hora em que dorme.


O cuidado centrado na pessoa procura fazer justamente o contrário. Sempre que possível, o idoso deve continuar participando das decisões sobre a própria vida. E existe algo que nenhuma equipe deveria substituir: a família


Talvez este seja o ponto mais importante deste texto. Mudar para uma ILPI não encerra o papel da família. Uma revisão científica analisando 32 estudos mostrou que familiares continuam oferecendo apoio emocional, pessoal e até instrumental (que significa fazer pagamentos, comprar  medicamentos, etc) depois que o idoso passa a viver em uma instituição.


Ou seja, a ideia de que a família simplesmente “entrega” o idoso e deixa de cuidar não corresponde necessariamente ao que acontece. A forma do cuidado muda. A família deve: visitar; telefonar; acompanhar consultas; participar das decisões; levar para passear; comemorar aniversários; acompanhar mudanças de comportamento; conversar com a equipe; continuar presente na vida cotidiana.
casa de repouso para idosos

Talvez precisemos rever o significado da palavra abandono


Um idoso pode morar em uma excelente instituição e receber visitas frequentes, carinho, acompanhamento e participação da família. E um idoso também pode morar sozinho dentro da casa onde viveu durante 40 anos e passar dias praticamente sem conversar com ninguém.


Então talvez seja necessário separar duas coisas que culturalmente colocamos juntas: institucionalização e abandono não são sinônimos. O endereço não consegue medir sozinho a presença de uma família.


Como escolher uma boa casa de repouso?


Se a decisão estiver sendo considerada, não escolha apenas pela aparência. Uma ambiente bonito não garante bom cuidado. Observe:


Como os funcionários tratam os residentes?


  • Eles chamam os idosos pelo nome?

  • Conversam ou apenas executam tarefas?

  • Os moradores parecem participar da rotina?

  • Existe respeito à privacidade?

  • Como são prevenidas as quedas?

  • Como os medicamentos são administrados?

  • Existe acompanhamento nutricional?

  • Como funciona o atendimento durante a madrugada?

  • Existem atividades?

  • Elas são obrigatórias ou respeitam preferências?

  • A família pode participar?

  • Como funciona em uma emergência?

  • Existe comunicação frequente com os familiares?

  • O idoso pode levar objetos pessoais para o quarto?

  • Existem espaços externos seguros?

  • Qual é a equipe disponível e como ela se organiza?


E talvez uma das perguntas mais reveladoras: “Como vocês preservam a autonomia dos moradores?” A resposta diz muito sobre a filosofia daquela instituição.


Antes de decidir, procure uma avaliação geriátrica


A decisão não precisa começar procurando uma casa de repouso. Pode começar dentro do consultório. Uma avaliação geriátrica pode analisar: cognição; mobilidade; risco de quedas; alimentação; medicamentos; doenças; humor; capacidade funcional; condições da residência; rede de apoio; necessidade de cuidador; sobrecarga familiar. E a conclusão pode ser: ele pode continuar em casa. Talvez sejam necessárias barras de apoio, fisioterapia, revisão dos medicamentos, cuidador em determinados horários ou maior participação familiar. 


Mas a avaliação também pode mostrar que o nível de cuidado necessário se tornou muito difícil de oferecer em casa. Nesse caso, procurar uma boa ILPI não precisa ser interpretado como desistência. Pode ser uma reorganização do cuidado.


A decisão mais amorosa nem sempre é a decisão que provoca menos culpa


Algumas decisões corretas também doem. O objetivo não deveria ser provar que toda casa de repouso é boa ou convencer famílias de que todos os idosos deveriam permanecer em casa.


Existem excelentes instituições. Existem instituições inadequadas. Existem idosos que vivem muito bem em casa. E existem idosos que já não conseguem viver ali com segurança. Por isso, a decisão precisa considerar uma pergunta acima de todas as outras: onde essa pessoa poderá envelhecer com mais segurança, dignidade, vínculo, autonomia possível e qualidade de vida?


A resposta será diferente para cada família. E justamente por isso ela merece ser tomada com informação, avaliação profissional e, sempre que possível, participação do próprio idoso.



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